1. ─
Os médiuns que recebem indicações de remédios, da parte dos Espíritos, não são o
que se chama médiuns curadores, pois eles próprios não curam; são simples
médiuns escreventes, que têm uma aptidão mais especial que os outros para esse
gênero de comunicações e que, por isto mesmo, podem ser chamados médiuns
consultores,como outros são médiuns poetas ou desenhistas. A mediunidade
curadora é exercida pela ação direta do médium sobre o doente, com o auxílio de
uma espécie de magnetização de fato, ou pelo pensamento.
2. ─
Quem diz médium diz intermediário. A diferença entre o magnetizador propriamente
dito e o médium curador é que o primeiro magnetiza com o seu fluido pessoal e o
segundo com o fluido dos Espíritos, aos quais serve de condutor. O magnetismo
produzido pelo fluido do homem é o magnetismo humano; o que provém do fluido dos
Espíritos é o magnetismo espiritual.
3. ─ O fluido magnético
tem, pois, duas fontes bem distintas: os Espíritos encarnados e os Espíritos
desencarnados. Essa diferença de origem produz uma grande diferença na qualidade
do fluido e nos seus efeitos.
O fluido humano está sempre mais
ou menos impregnado de impurezas físicas e morais do encarnado; o dos bons
Espíritos é necessariamente mais puro e, por isto mesmo, tem propriedades mais
ativas, que acarretam uma cura mais rápida. Mas, passando através do encarnado,
pode alterar-se como um pouco de água límpida passando por um vaso impuro, como
todo remédio se altera se permanece muito tempo num recipiente impróprio e
perde, em parte, suas propriedades benéficas. Daí, para todo verdadeiro médium
curador, a necessidade absoluta de trabalhar a sua depuração, isto é, o seu
melhoramento moral, segundo este princípio vulgar: Limpai o vaso antes de dele
vos servirdes, se quiserdes ter algo de bom. Só isto basta para mostrar que o
primeiro que aparecer não poderá ser um médium curador, na verdadeira acepção da
palavra.
4. ─ O fluido espiritual será tanto mais depurado e
benfazejo quanto mais o Espírito que o fornece for puro e desprendido da
matéria. Compreende-se que o dos Espíritos inferiores deve aproximar-se do homem
e pode ter propriedades maléficas, se o Espírito for impuro e animado de más
intenções.
Pela mesma razão, as qualidades do fluido humano
apresentam nuanças infinitas, conforme as qualidades físicas e morais do
indivíduo. É evidente que o fluido que emana de um corpo malsão pode inocular
princípios mórbidos no magnetizado. As qualidades morais do magnetizador, isto
é, a pureza de intenção e de sentimento, o desejo ardente e desinteressado de
aliviar o seu semelhante, aliados à saúde do corpo, dão ao fluido um poder
reparador que pode, em certos indivíduos, aproximar-se das qualidades do fluido
espiritual.
Assim, seria um erro considerar o magnetizador como
simples máquina de transmissão de fluidos. Nisto, como em todas as coisas, o
produto está na razão do instrumento e do agente produtor. Por estes motivos,
seria imprudência submeter-se à ação magnética do primeiro desconhecido que se
apresente. Abstração feita dos conhecimentos práticos indispensáveis, o fluido
do magnetizador é como o leite de uma nutriz: salutar ou
insalubre.
5. ─ Sendo o fluido humano menos ativo, exige uma
magnetização continuada e um verdadeiro tratamento, por vezes muito longo.
Gastando o seu próprio fluido, o magnetizador se esgota e se afadiga, pois dá de
seu próprio elemento vital, por isso ele deve, de vez em quando, recuperar suas
forças. O fluido espiritual, mais poderoso em razão de sua pureza, produz
efeitos mais rápidos e por vezes quase instantâneos. Não sendo esse fluido do
magnetizador, disso resulta que a fadiga é quase nula.
6. ─ O
Espírito pode agir diretamente, sem intermediário, sobre um indivíduo, como foi
constatado em muitas ocasiões, quer para aliviá-lo, para curá-lo, se possível,
quer para produzir o sono sonambúlico. Quando ele age por um intermediário,
trata-se de mediunidade curadora.
7. ─ O médium curador recebe o
influxo fluídico do Espírito, ao passo que o magnetizador tudo tira de si mesmo.
Mas os médiuns curadores, na estrita acepção da palavra, isto é, aqueles cuja
personalidade se apaga completamente ante a ação espiritual, são extremamente
raros, porque essa faculdade, elevada ao mais alto grau, requer um conjunto de
qualidades morais raramente encontradas na Terra; só esses podem obter, pela
imposição das mãos, essas curas instantâneas que nos parecem prodigiosas. Muito
poucas pessoas podem pretender esse favor. Sendo o orgulho e o egoísmo as
principais fontes das imperfeições humanas, daí resulta que os que se gabam de
possuir esse dom, que vão a toda parte contando as curas maravilhosas que
fizeram ou que dizem ter feito; que buscam a glória, a reputação ou o proveito,
estão nas piores condições para obtê-lo, porque essa faculdade é privilégio
exclusivo da modéstia, da humildade, do devotamento e do desinteresse. Jesus
dizia àqueles que ele havia curado: ‘Ide dar graças a Deus e não o digais a
ninguém’.
8. ─ Sendo, pois, a mediunidade curadora uma exceção
aqui na Terra, disso resulta que há quase sempre ação simultânea do fluido
espiritual e do fluido humano; quer dizer que os médiuns curadores são todos
mais ou menos magnetizadores, razão pela qual agem conforme os processos
magnéticos. A diferença está na predominância de um ou do outro fluido e na cura
mais ou menos rápida. Todo magnetizador pode tornar-se médium curador, se souber
fazer-se assistir por bons Espíritos. Neste caso os Espíritos vêm em seu
auxílio, derramando sobre ele seu próprio fluido, que pode decuplicar ou
centuplicar a ação do fluido puramente humano.
9. ─ Os Espíritos
vêm aos que eles querem; nenhuma vontade pode constrangê-los; eles se rendem à
prece, se for fervorosa, sincera, mas nunca à injunção. Disto resulta que a
vontade não pode dar a mediunidade curadora e que ninguém pode ser médium
curador com desígnio premeditado. Reconhece-se o médium curador pelos resultados
que obtém e não por sua pretensão de o ser.
10. ─ Mas se a
vontade for ineficaz quanto ao concurso dos Espíritos, é onipotente para
imprimir ao fluido, espiritual ou humano, uma boa direção e uma energia maior.
No homem apático e distraído, a corrente é débil e a emissão é fraca; o fluido
espiritual pára nele, mas sem proveito para ele; no homem de vontade enérgica, a
corrente produz o efeito de uma ducha. Não se deve confundir vontade enérgica
com teimosia, porque a teimosia é sempre resultado do orgulho ou do egoísmo, ao
passo que o mais humilde pode ter a vontade do devotamento.
A
vontade é ainda onipotente para dar aos fluidos as qualidades especiais
apropriadas à qualidade do mal. Este ponto, que é capital, se liga a um
princípio ainda pouco conhecido, mas que está em estudo, o das criações
fluídicas e das modificações que o pensamento pode produzir na matéria. O
pensamento, que provoca uma emissão fluídica, pode operar certas transformações
moleculares e atômicas, como vemos se produzirem sob a influência da
eletricidade, da luz ou do calor.
11. ─ A prece, que é um
pensamento, quando fervorosa, ardente, feita com fé, produz o efeito de uma
magnetização, não só chamando o concurso dos bons Espíritos, mas dirigindo ao
doente uma salutar corrente fluídica. A respeito disto chamamos a atenção para
as preces contidas no Evangelho segundo o Espiritismo, pelos doentes ou pelos
obsedados.
12. ─ Se a mediunidade curadora pura é privilégio das
almas de escol, a possibilidade de suavizar certos sofrimentos, mesmo de curar,
ainda que não instantaneamente, certas moléstias, a todos é dada, sem que haja
necessidade de ser magnetizador. O conhecimento dos processos magnéticos é útil
em casos complicados, mas não indispensável. Como a todos é dado apelar aos bons
Espíritos, orar e querer o bem, muitas vezes basta impor as mãos sobre uma dor
para acalmá-la; é o que pode fazer qualquer indivíduo, se ele estiver dotado de
fé, fervor, vontade e confiança em Deus. É de notar que a maior parte dos
médiuns curadores inconscientes, aqueles que não se dão conta de sua faculdade,
e que por vezes são encontrados nas mais humildes posições e em gente privada de
qualquer instrução, recomendam a prece e orando se ajudam mutuamente. Apenas sua
ignorância lhes faz crer na influência desta ou daquela fórmula. Às vezes,
mesmo, a isto misturam práticas evidentemente supersticiosas, às quais devemos
atribuir o valor que elas merecem.
13. ─ Mas, pelo simples fato
de se ter obtido resultados satisfatórios uma ou mais vezes, seria temerário
considerar-se médium curador e daí concluir que se pode vencer toda espécie de
mal. A experiência prova que, na acepção restrita da palavra, entre os melhor
dotados não há médiuns curadores universais. Este terá restituído a saúde a um
doente e nada fará sobre outro; aquele terá curado um mal numa pessoa mas não
curará o mesmo mal outra vez, no mesmo doente ou em outro; aquele outro, enfim,
terá a faculdade hoje e não terá amanhã, e poderá recuperá-la mais tarde,
conforme as afinidades ou as condições fluídicas em que se
encontre.
14. ─ A mediunidade curadora é uma aptidão inerente ao
indivíduo, como todos os gêneros de mediunidade, entretanto, o resultado efetivo
dessa aptidão independe de sua vontade. Incontestavelmente, ela se desenvolve
pelo exercício, sobretudo pela prática do bem e da caridade; mas, como não
poderia ter a constância nem a regularidade de um talento adquirido pelo estudo,
e do qual se é sempre senhor, ela não poderia tornar-se uma profissão. Seria,
pois, abusivo alguém apresentar-se ao público como médium curador. Estas
reflexões não se aplicam aos magnetizadores, porque a força está neles e eles
têm a liberdade de dela dispor.
15. ─ É um erro crer que aqueles
que não partilham de nossas ideias não terão a menor repugnância em experimentar
essa faculdade. A mediunidade curadora racional está intimamente ligada ao
Espiritismo, porque repousa essencialmente no concurso dos Espíritos. Ora,
aqueles que não creem nos Espíritos nem em sua própria alma, e ainda menos na
eficácia da prece, não saberiam colocar-se nas condições requeridas, pois isto
não é coisa que se possa experimentar maquinalmente. Entre os que acreditam na
alma e na sua imortalidade, quantos ainda hoje não recuariam de medo ante um
apelo aos bons Espíritos, por receio de atrair o demônio, e que ainda julgam de
boa-fé que todas as curas são obra do diabo? *O fanatismo é cego; não
raciocina*. Certamente não será sempre assim, mas ainda passará muito tempo
antes que a luz penetre em certos cérebros. Enquanto se espera, façamos o maior
bem possível, com o auxílio do Espiritismo; façamo-lo mesmo aos nossos inimigos,
ainda que tivéssemos de ser pagos com a ingratidão. É o melhor meio de vencer
certas resistências e de provar que o Espiritismo não é tão negro como alguns
pretendem.Revista Espírita, setembro de 1865. Da Mediunidade
Curadora. Allan Kardec.