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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O FIM DO FIM DO LIVRO.

O fim do fim do livro

Rui Campos


Quantos psicólogos são necessários para se trocar uma lâmpada? Basta um! Mas a lâmpada precisará “desejar” ser trocada!
Pois é. O desejo move montanhas. Com a leitura também é assim.
A pessoa pode passar a vida sem leitura. Certamente uma vida menos ilustrada. Mas não morrerá de inanição ou sede como se abstivesse de comida ou água.
Cultura, cultivo... a leitura precisa ser cultivada. Precisamos cultivar o desejo de conhecimento, o desejo de leitura.
A grande ferramenta que possibilita a leitura é o livro, seja em que suporte for.
Durante séculos, o impresso veio sendo cultuado, reverenciado, aprimorado, adornado com design espetacular, belas capas, papel leve e de tom confortável, orelhas inteligentes, rosto encantador. Um produto multissensorial.
Seus autores tratados como estrelas, seus editores reverenciados. E seus locais de encontro com o leitor, as livrarias (físicas ou virtuais), locais frequentados e amados por toda gente. Verdadeiros pontos de encontro, praças, bibliotecas! Pois afinal, ali é possível manusear os livros, lê-los e até mesmo leva-los para casa por módicas quantias.
O livro impresso, como o garfo e a faca, disse Umberto Eco, são objetos definitivos.
Algumas poucas inovações surgiram através dos tempos.
Recentemente, surgiu o aparelho eletrônico para leitura. Trouxe uma série de alternativas e de facilidades para os leitores: capacidade de armazenamento, acesso rápido e remoto, entre outras. Bem-vindas novidades.
Mas os donos do negócio tinham pressa. Uma pressa que se mostrou um tanto desconectada. Seria mais rápido destruir o que já havia. Varrer o concorrente do mapa. Acabar com o livro impresso.
Esses donos do negócio são poderosos. Nada menos do que algumas das maiores corporações mundiais.
Logo toda uma campanha contra o livro impresso se iniciou. Segundo essa distopia, ele seguiria moribundo. Discutia-se a data final. O avanço do e-book seria exponencial. Nesse ano de 2017, já só restariam cinzas de livros e livrarias. Saudosas livrarias. Morreriam em 2015!
Claro que sempre restaria um nicho: gente saudosista e antiquada, a cultivar fósseis e colecionar relíquias. Ludistas.
As editoras também: essas faleceriam por volta de 2014. Por absoluta obsolescência.
Os editores? Dispensáveis. Cada autor se autopublicaria. Uma nova “Geração Mimeografo” high tech!
Para atingir rapidamente o objetivo dos novos poderosos, muita gente embarcou nessa canoa: tantas previsões, estatísticas, artigos jornalísticos visionários dos “Evangelizadores Tecnológicos”!
Muito espaço na mídia escrita, falada e principalmente eletrônica foi utilizado na blitz iconoclasta visando limpar rapidamente o espaço para a chegada triunfal do livro eletrônico. Muito dinheiro, público inclusive, foi investido e perdido.
Uma busca por tudo o que foi escrito sobre o tema pode render um interessante retrato desses tempos insensatos.
O fato é que as coisas foram se acomodando. A sociedade se manifestou. O livro eletrônico vai ocupando seu lugar. Modesto, embora ainda com perspectivas de crescimento.
O livro impresso, livrarias e editores sofreram.
Hoje as notícias são de retomada no crescimento de vendas, surgimento de novas livrarias pelo mundo afora.
Evidencias da manifestação da sociedade e do seu desejo pelo sagrado objeto multissensorial, o livro!
Dos formuladores e divulgadores das previsões atrevidas e catastróficas que causaram prejuízos e mal-estar ao mercado livreiro não adianta esperar reparação ou pedido de desculpas pelo estrago.
Um editor estrangeiro me confidenciou recentemente: “Concedi hoje uma entrevista para a Revista Wired que foi muito desagradável. Eles queriam saber sobre nossos planos para edições eletrônicas de livros de arte. Mas eu não tinha o que dizer pois abandonamos completamente esses projetos. Mas tive que dissimular e enrolar pois não poderia admiti-lo!”.
Lembro-me especificamente da capa de uma das nossas principais revistas semanais onde Paulo Coelho, nosso maior best-seller, uma verdadeira lenda do mercado livreiro mundial, segurava um tablete com a seguinte manchete: “O último livro que você vai comprar!”
Forte, não é? E muitos números, power points, gráficos divulgados sobre o fim do nosso nobre objeto de leitura.
Do meu ponto de vista, o ponto de vista dos livreiros, contamos perdas, mas agora já estamos à vontade para comemorar a certeza do fim do fim do livro!

(Publishnews - 19/07/2017)

*

Rui Campos é dono da rede Livraria da Travessa. Sua primeira aventura no mundo do livro foi em 1975, quando inaugurou a Livraria Muro, em Ipanema, que logo firmou-se como um lugar de encontro, discussão e resistência ao regime militar. Em meados dos anos 1990, Rui inaugurou a Livraria da Travessa, na Travessa do Ouvidor, no Centro do Rio. Hoje a Travessa conta com sete lojas no Rio e uma em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Nesse espaço, Rui discute os temas relacionados ao mercado livreiro e o seus impactos na sociedade.

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