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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A NOVA FASE DOS CLUBES DOS LIVROS.

A nova fase dos clubes de livros

Olga de Mello - Valor - 28/10/2016


Uma bela embalagem, recomendações de especialistas, pequenos presentes e a sensação de pertencer a um grupo seleto. Juntando esses ingredientes e desafiando a crise econômica, os clubes de livros estão conquistando assinantes que optam pela comodidade de receber em casa títulos a bons preços e, por vezes, em edições exclusivas. Um dos mais bem-sucedidos, TAG - Experiências Literárias, foi criado há menos de dois anos e tem projeção de triplicar seus atuais 10 mil assinantes até 2018. Um número ainda bem distante dos 800 mil filiados ao tradicional Círculo do Livro, referência do setor.
O mais antigo clube de livros do Brasil é a Biblioteca do Exército, fundada em 1881, cujo sistema de assinaturas começou por volta dos anos 30, oferecendo um vasto catálogo de títulos sobre assuntos militares e história. Os livros de temática religiosa, segmento de maior venda no país, também têm distribuição para grupos criados por instituições não lucrativas, como o Clube do Livro Espírita de Divinópolis (MG), que há 14 anos congrega 700 assinantes - "boa parte deles, católicos", segundo a coordenadora Alessandra Gontijo.
Já o Círculo do Livro, fruto da associação das editoras Abril e Bertelsmann - um dos mais fortes grupos editoriais alemães -, alcançou seu auge em 1982, quando vendeu 5 milhões de volumes. Chegou a contar com 2,6 mil vendedores independentes, que recolhiam os pedidos dos assinantes, escolhidos numa revista trimestral, distribuindo livros em 2.850 municípios brasileiros.
"O Círculo do Livro sobreviveu ao longo de quase 30 anos, apesar de sucessivas crises econômicas, em momentos parecidos com o que vivemos agora. Hoje contamos com a vantagem de vender pela internet, atendendo a um leitor que espera sair da zona de conforto literário e, por isso, quer a recomendação de um curador", diz Gustavo Lembert, que fundou a TAG com dois ex-colegas do curso de administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por R$ 69,90 mensais, além do livro, que sempre é uma surpresa, os associados recebem revista e brindes relacionados ao tema literário.
O projeto original da TAG era de revender livros já editados, mas diante do crescimento dos associados, em parceria com editoras, a empresa oferece tiragens exclusivas para seus filiados. "É uma forma nova de fomentar o mercado. Já fomos procurados por alguns desses clubes, que têm interesse em nossos títulos. A vantagem está em vender livros sem consignação, como habitualmente negociamos com as livrarias. Os clubes pagam à vista pelas tiragens exclusivas, que interessam e movimentam o mercado", diz Bruno Zolotar, diretor comercial e de marketing do grupo editorial Record, um dos maiores do país.
Para Sérgio Cohn, à frente da editora Azougue, os clubes de assinatura são "uma resposta às livrarias 'dinossauros', que só pagam pelo livro de 60 a 90 dias depois da venda". Ainda neste semestre, a Azougue entrega a assinantes uma antologia com 30 poemas inéditos de Roberto Piva (1937-2010), o primeiro volume de uma série que pretende traçar um panorama da poesia brasileira contemporânea. A edição artesanal, com capa dura em tecido, trazendo apresentação e entrevista dos poetas, não ultrapassará 300 exemplares, cada um ao custo de R$ 50.
"Esperávamos uma boa procura de professores, e acabamos surpreendidos, pois nossos mais de 200 cadastrados são, principalmente, estudantes que souberam do projeto pela internet. Apesar da grande expansão do parque universitário do país, não houve investimento em editoras acadêmicas que fornecessem aos alunos material que discutisse o pensamento contemporâneo", diz Cohn, que terá na coleção obras de Torquato Neto (1944-1972), Armando Freitas Filho, Leonardo Fróes e Glauco Mattoso, entre outros poetas.
Sem revelar títulos ou autores que serão parte de seu catálogo, o recém-lançado Garimpo Clube do Livro pretende trabalhar com a literatura "que fica fora da lista de mais vendidos", segundo a editora Julia Wahmann. "O número de lançamentos de livros está bem acima do que é absorvido pelo público", diz Julia. "Há muitos títulos e autores que permanecem desconhecidos, além de outros que acabam esquecidos, pois o mercado faz divulgação maciça do que obteve sucesso no exterior, deixando de lado material importante."
Cinco curadores fixos cuidarão de diferentes clubes temáticos (humor e amor, ficção, poesia, negócios, infantil), escolhendo um livro por mês para os assinantes, que deverão se inscrever de acordo com interesses pessoais. Por buscar "fugir do óbvio", diz o jornalista Miguel Conde (ex-curador da Festa Literária Internacional de Paraty), curador de ficção do Garimpo, os livros serão acompanhados por cartas de apresentação sobre a obra, além de brindes. "Mas não queremos ser conhecidos como 'o clube da lembrancinha', e sim fomentar o interesse por autores e livros desconhecidos do grande público, trabalhando com catálogos de diferentes editoras", afirma Julia Warhmann.
A longo prazo, o Garimpo pretende ampliar as temáticas e convidar outros curadores, com a possibilidade também de ter edições próprias. "Partimos de nosso desejo pessoal de solucionar alguns problemas do setor, que lança uma quantidade imensa de livros que jamais vende toda a tiragem", afirma o economista Gustavo Barbeito, o único dos fundadores do Garimpo que não veio do mercado editorial. "Publicações nossas precisam ser pensadas com muito cuidado, a fim de chegarmos a preços justos, não acima dos R$ 50, que é o custo de cada clube."
Algumas editoras, depois de investirem na criação de grupos de leitura, começam a montar seus clubes de assinatura, como a Companhia das Letras, que criou o Expresso Letrinhas, para distribuição mensal de dois livros infantis a R$ 54,90.
"É um trabalho de formiga, que começou em dezembro de 2015 e tem sido bem recebido. O livro infantil enfrenta uma dificuldade maior na comercialização do que os outros gêneros. O espaço, nas livrarias, é concorrido, e os livros-brinquedo chamam mais a atenção do público", diz a editora do selo infantil Companhia das Letrinhas, Mell Brites, responsável pelo projeto. "Temos observado a imensa dificuldade dos pais em escolher títulos para os filhos, por isso pensamos na curadoria com três faixas etárias, distribuídas entre 0 e 12 anos."


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