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sábado, 12 de novembro de 2016

LEITURA EXPERIMENTAL APONTA INFINITAS POSSIBILIDADES DE ESCRITA.

Literatura experimental aponta infinitas possibilidades na escrita

Rômulo Neves

Uma das vertentes da literatura contemporânea é a chamada literatura experimental. Trata-se de inovações, especialmente no formato e no suporte das peças literárias, para a elaboração de novas obras de arte. Seja na poesia ou na prosa, os autores buscam novas formas de produção, até onde a criatividade alcança.

Na poesia, por exemplo, há a poesia visual, que trabalha a imagem como parte do significado do poema, com fotos e ilustrações. Ainda um pouco mais ousada é a poesia eletrônica, que não apenas usa o meio eletrônico como suporte substituto do papel, mas como parte da própria experiência poética.

Nesse sentido, certamente o autor brasileiro mais produtivo é Alckmar Luiz dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Alckmar é engenheiro, mas acabou desembocando na literatura, onde fez mestrado e doutorado. Conseguiu juntar os dois mundos e, hoje, além de dar aulas de literatura brasileira, coordena o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística da UFSC. Ganhou alguns concursos literários, entre eles o Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, da Revista Cult, ainda em 2001.

Inovações na prosa
Se, no caso da poesia, a experimentação atual está no uso de um novo suporte/material, no caso da prosa, a inovação está na limitação de formatos, na imposição de critérios prévios ou na construção de jogos de linguagem, significado ou mesmo de seleções randômicas.

Nesse aspecto, a iniciativa mais conhecida e produtiva foi a do grupo francês Oulipo (ulipô) — acrônimo, em francês, para Oficina de Literatura Potencial. Criado em 1960, o grupo reuniu escritores do quilate de Ítalo Calvino, Georges Perec e Raymond Queneau, mas foram mais de 35 autores que participaram das oficinas de criação.

Nelas, eram utilizadas regras matemáticas ou jogos de linguagem como estímulos para a produção de suas obras. A exemplo da escrita de versos ou frases com todas as palavras iniciando com a mesma letra, a escrita de poemas com versos de uma única palavra, cada uma com uma letra a mais do que a anterior, entre outros desafios.

Obra-prima experimental
Um dos mais conhecidos expoentes do grupo foi Ítalo Calvino, mas ele tinha uma produção para além do Oulipo. Aliás, seus livros mais famosos, “Os Amores Difíceis”, “As Cidades Invisíveis” e “Por Que Ler os Clássicos”, estão fora das experimentações do Oulipo, até porque, sendo italiano, participava esporadicamente dos coletivos criativos do grupo, que se reunia em Paris.

Foi mesmo Georges Perec que levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima. Seu primeiro romance utilizando o método de definição prévia de restrição voluntária na escrita foi “La Disparition”, de 1969, apenas dois anos depois de ter entrado para o grupo.

Somente em 2016, porém, em razão da dificuldade da empreitada, o livro foi traduzido para o português e lançado pela Editora Autêntica, com o título “O Sumiço”. Trata-se de um romance escrito inteiramente sem o uso da vogal “e”, a letra mais comum na língua francesa — como o “a” é na língua portuguesa. O livro, aliás, foi dedicado à “e”.

Um romance feito de diversos romances
Em 1972, Perec lançou uma espécie de revanche, o livro “Les Revenentes” (em tradução livre, “As Retornadas” ou “As Fantasmas”), em que o “e” é única vogal utilizada ao longo de todo o novo romance. Esforço de peso, você há de concordar. Foi em 1978, entretanto, que Perec lançou sua obra-prima: “A Vida — Modo de Usar”.

A obra narra, seguindo regras da lógica matemática, sem que o leitor perceba, a vida dos moradores de um edifício parisiense, de 1875 a 1975, e apresenta vários níveis de significação, com uma descrição espacial específica para ajudar o leitor a caminhar pelos corredores do prédio.

Contos de tamanho definido
Atualmente, a experimentação mais em voga é o microconto. Contos com tamanho definido, seja em número de caracteres, seja em número de palavras. Apesar de o microconto ter-se popularizado na década de 1990, e, no Brasil, contar com uma obra inteira de Dalton Trevisan dedicada ao formato, já em 1994, intitulada “Ah, É”, a iniciativa mais conhecida foi o concurso de microcontos lançado pela Academia Brasileira de Letras, em 2010, para aproveitar a onda do aparecimento do twitter.

O tamanho máximo era, exatamente, a quantidade de caracteres permitidos nas mensagens da nova plataforma: 140. O concurso recebeu cerca de 2.300 inscrições. Ironicamente, os prêmios para os segundo e terceiro lugares eram minidicionários.

Os microcontos de Zezeu
Em Brasília, também temos uma iniciativa de experimentação nessa área. Trata-se do livro “Microcontos”, de Deusdedith Rocha Jr., o Zezeu. O livro, lançado de maneira independente neste ano, conta com 100 contos, com exatas 100 palavras cada.

Escritos entre 2014 e 2015, os contos de Zezeu se inserem perfeitamente no contexto das experimentações do Oulipo: rigidez formal e ampla abertura temática. O próprio autor reconhece a dificuldade de se manter preso ao formato e avisa, na introdução da obra, que vai navegar outros mares dali pra frente, mas desafia alguém a pegar o bastão.

O resultado é primoroso e, tanto pela necessidade de síntese, como pelo histórico de poeta do autor, tem passagens e desfechos típicos da linguagem poética. O maior desafio do microconto, como na poesia, é conter a maior quantidade de significados com o mínimo de material escrito, porém, sem deixar o leitor perdido, sem o fio da meada.

O fim pode não ser o fim
No microconto, é possível que o fim não seja o fim, mas o começo de outro novelo, de outra história, de outro drama. Exatamente como na história “Humildade”, um dos contos do livro:: “Ainda me pergunto se essa conclusão de fato encerra o assunto ou principia um distanciamento novo para a questão”. O repórter que fazia a entrevista ficou atônito, certamente. O livro, obviamente curto, vale a pena. Diverte, ao mesmo tempo em que sugere muita reflexão.

De todo modo, o microconto não está definido como um formato muito específico, como o soneto, e tudo ainda é discricionário, felizmente. Zezeu, por exemplo, escolheu como métrica as 100 palavras, a ABL, 140 caracteres.

Já o jornalista Carlos Willian Leite selecionou uma antologia primorosa para a revista eletrônica Bula, com 30 microcontos, de até 100 caracteres cada um. Como podemos ver, ainda está tudo no contexto da experimentação.

(Metrópoles)

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Rômulo Neves é diplomata (passou pelas Embaixadas na Venezuela, Suriname e Etiópia), jornalista (Folha de São Paulo, Gazeta) e professor (UDF, IESB, UnB, Uniplac, ESAMC). Fez Ciências Sociais pela USP, mestrado em Sociologia (USP) e em Diplomacia (Instituto Rio Branco).

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