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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

LETRAMENTO, ALFABETIZAÇÃO E PEQUENOS ESCRITORES.

Letramento, alfabetização e pequenos escritores

Lilian Kuhn - Revista Crescer - 05/09/2016


O último trimestre escolar de 2016 está a caminho e, consequentemente, aumentam-se as buscas por avaliação fonoaudiológica para o “filho de 4 ou 5 anos que ainda não escreve”. Muitas vezes, os pais também relatam ter sensação de que a alfabetização tem começado muito cedo e que seu filho talvez não esteja preparado para tal etapa. Será que eles têm razão ou tem havido uma confusão entre letramento e alfabetização?

O conceito de “letramento” vem sendo fortemente adotado pelas escolas, cujas práticas de ensino são voltadas para o “alfabetizar letrando”. O letramento considera a aprendizagem, reflexão e construção dos aspectos sociais da escrita. Nessa perspectiva, a apresentação, o manuseio e a construção de materiais escritos são inseridos no cotidiano da criança desde muito cedo, de maneira lúdica e informal.

As pesquisas em educação mostram, por exemplo, que, quanto maior for o nível de letramento do ambiente em que o aluno está inserido, melhor será a relação dele com a escrita formal. E, portanto, melhor também será seu desempenho no processo de alfabetização. Nas escolas em que o letramento é um dos objetivos, as atividades de leitura e escrita são feitas com todos os alunos e durante todo o ciclo escolar, o que não significa que exigiremos que as crianças saibam ler e escrever mais cedo.

Por outro lado, estar alfabetizado significa ter domínio total da leitura e da escrita, com possibilidade plena de ter os atos mecânicos de ler (decodificação) e escrever (codificação), mas também de interpretar, compreender e criar textos. Para o Programa Alfabetização na Idade Certa do Ministério da Educação (MEC), isso deve acontecer aos 8 anos, com o inicio formal desse processo aos 6, que é quando o aluno ingressa no Ensino Fundamental.

Claro que, como em todos os outros aspectos do desenvolvimento infantil, as variações individuais estão presentes e podemos ver crianças que, aos 5, já leem e escrevem facilmente. Mas, além da definição da faixa etária, temos que nos embasar na presença de aspectos físicos e sociais, que seriam pré-requisitos para a leitura e a escrita: fluência de linguagem oral, pensamentos abstratos, noções de espaço e tempo, estabelecimento de coordenação motora fina, entre outros.

Acreditando que, assim como falar culmina do processo de aquisição da linguagem oral, escrever é produto da construção da linguagem escrita. E mais: algumas atividades e muitos conteúdos podem ser apresentados desde o inicio da Educação Infantil, mesmo que as habilidades primordiais não estejam totalmente desenvolvidas e que os pais precisam ser informados de que o objetivo é de “letrar” e não de alfabetizar.

Desta forma, ao propor como lição de casa a leitura de um livro, a escrita de uma mensagem para a mãe ou a criação de uma lista de compras, não se supõe que o aluno da Educação Infantil o faça sozinho, formalmente ou corretamente, mas que se habitue a um novo código de comunicação e que desperte seu interesse por ele.

Para garantir que chegaremos lá no final do processo de alfabetização com sucesso e sem obstáculos, lembrem-se que:

– Ambiente letrado(r): ter contato social com materiais escritos no dia-a-dia, bem como ver que os adultos ao redor também leem e se interessam pela atividade;

– O fator “motivação” é essencial para qualquer aprendizado ocorrer. Portanto, não brigue com seu filho se ele errar ou disser que não consegue ler/escrever. Incentive-o e ofereça ajuda para que ele continue motivado na viagem ao mundo das letras!

– Perceba se ele está apto a entrar na jornada da alfabetização. Crianças com alterações visuais, auditiva, de linguagem oral ou neurológica podem precisar de adaptações de materiais, maior exposição ao conteúdo e/ou mais tempo para completar o ciclo da alfabetização.

A escola já sinalizou que o filho está com “dificuldade” para ser alfabetizado? Tente entender qual é a queixa da equipe pedagógica, busque avaliações com um fonoaudiólogo para investigar se há algum distúrbio (transtorno) de aprendizagem, mas não aceite (e nem use) rótulos de que o seu filho tem “preguiça de pensar” ou “preguiça de aprender”. Combinado?

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